ENTRE DEUS E O PECADO

 

 

Direção – Richard Brooks

Roteiro  -  Adaptação de Obra de Sinclair Lewis pelo Diretor

SINOPSE

 

Frederico                                                 

Elmer Gantry (Burt Lancaster), personagem fascinante - caixeiro viajante, beberrão, simpático e falastrão - usa seu grande poder de sedução em falas entremeadas de citações bíblicas, para ganhar dinheiro e deflorar mocinhas incautas. Pelo seu papel, Burt Lancaster ganhou o Oscar de melhor ator.

Vagueando pelo interior dos Estados Unidos em recessão, Elmer encontra com a pregadora evangélica Sharon Falconer (Jean Simmons) e a convence de tomá-lo como parceiro nas suas pregações. Os dois fazem enorme sucesso. Ele condena todos ao inferno pelos seus pecados e ela, com toda a sua ternura, promete a todos o paraíso se se arrependerem. Com oratória convincente os ataques histéricos se sucedem. Como esperado, ele a seduz, tornando-se seu amante.

Com apoio das classes dirigentes e de alguns chefes religiosos, transferem-se para a cidade de Zenith. Lá ele lança a campanha para expulsar as prostitutas. Em uma operação, Elmer invade um prostíbulo e encontra Lulu Bains (Shirley Jones). Ela tinha sido deflorada pelo nosso herói, atrás do púlpito, na igreja onde era seminarista. Expulsa de casa pelo Pastor seu pai, torna-se uma prostituta.

Mais tarde Lulu, para se vingar, liga para Elmer marcando um encontro. Ele é flagrado em uma cena de beijo apaixonado por um fotógrafo escondido. Nada surpreendente, pois não há macho que resistiria ao seu charme e beleza. Por um papel de curta duração, Shirley Jones ganhou o Oscar de Melhor Atriz.
 

Levando avante a chantagem, Lulu obriga Sharon a levar pessoalmente $25.000,00 para ela, em troca dos negativos. Lulu recusa o dinheiro e entrega as fotos a um jornal, que as publica.  O prestígio de Elmer vai a zero, e os fieis o atacam com ovos podres. Ele procura Lulu e a encontra sendo agredida pelo chantageador. Espanca o agressor e pede desculpas a ela.

Em seguida é a vez de Lulu se desculpar. Publicamente relata a chantagem, o que também é noticiado no jornal. Apesar de ter recuperado prestígio, Elmer sugere a Sharon que partam, abandonando as pregações. Esta recusa, mesmo porque um tabernáculo está sendo construído, o que sempre foi seu sonho. Tragicamente, o tabernáculo pega fogo e Sharon morre.

Na cena final, Elmer se prepara para partir, com uma mala em uma mão e a bíblia na outra. O chefe da igreja oferece que ele permaneça e continue pregando. Ele responde com uma citação da Bíblia:

 “Quando eu era criança, entendia com uma criança e falava como uma criança. Quando me tornei um homem, pus de lado as infantilidades.”

 

EVANGÉLICOS EM TRÊS TEMPOS

 Esmanhoto

1. CANÇÕES

Para a tradição católica, nos anos 60 a Religião prevalente no Brasil, as canções mais ouvidas em missas, casamentos e outros eventos, eram pesadas, arrastadas. Não têm espaço para um repentino e vibrante “Aleluia, Irmão!”.

 

Os Evangélicos criaram um cancioneiro animado, repleto de exaltações. Essa perspectiva animadora do culto religioso está traduzida na apresentação de algumas canções no filme. A podução cuidou de incorporar algumas delas ao roteiro, entoadas por um afinadíssimo coro egresso dos “negro spirituals”.

As principais músicas da trilha sonora do filme podem ser acompanhadas no “Canal Canções Evangélicas”. Dá vontade mesmo de misturar-se ao coro, cantar e se sentir melhor.

2. SERMÕES

Elmer descobriu uma pregação que poderia funcionar como uma “cantada” e faz disso o leitmotiv de sua atuação como Pastor. É seu primeiro discurso ainda na apresentação do personagem, quando Elmer passa a noite de Natal num bar. Sempre começa com uma pergunta retórica "O que é o Amor?".

Para ser aceito na trupe da Irmã Shara Elmer propõe-se a usar o seu caso como depoimento pessoal, um vendedor fracassado que entrega as vendas para Jesus. Começa convencendo a Irmã a colocá-lo num teste que termina com um enorme sucesso. Elmer agora faz parte do time.

 

Interessante no final deste sermão o depoimento do faxineiro. O diálogo revela que ciclos de “pecado e redenção” podem se instalar de modo crônico. Sermões feitos  dramaticamente podem provocar a restauração do ego, especialmente de pessoas boas e sensíveis. Mas, estes momentos de inflexão raramente significam alterações de comportamento duradouras.

 

O que aprendeu da Bíblia serve para ilustrar seus sermões. Ora entram como instrumento de envolvimento emocional, ora como instrumento de terror. É desta linha o sermão que começa com a chamada aos “Sinners!”. É tão envolvente que durante um tempo essa exclamação virou uma interjeição coloquial. Era usada a propósito de qualquer coisa na conversa entre colegas que necessitasse de uma expressão forte. Poderia ser tanto sinal de aprovação como o seu contrário. O importante é que significava sempre algo “grandioso”.

 

O DK usava esta expressão de um modo engraçado. Se havia silêncio ele podia irromper com um fortíssimo “Sinners!”. Se a nota de uma prova não era boa, lá vinha um “Sinners!” para aliviar. Se numa discussão um argumento não colava, podia-se ouvir um ruidoso “Sinners!” para desqualificá-lo.

3. A BOA ALMA DE LULU BAINS

Lulu Bains é um desses casos onde o personagem secundário traz tanto ou mais interesse do que os personagens principais. No filme ela aparece já como prostituta versão Hollywood, depois de ser expulsa pelo pai e abandonada por Elmer. Charmosa, inteligente, sarcástica, provocativa.

É um personagem essencial para a humanização dos personagens principais e para o curso da ação. A sequência de pequenos vídeos no Canal "A Boa Alma de Lulu Bains" faz a narrativa completa de quem percorre o ciclo da parte ofendida que busca vingança e acaba passando pelo calvário de uma dolorosa pacificação de seus sentimentos com relação a seu desafeto.

Shirley Jones transmite toda a nuance desta transformação da vingança em reconciliação.

 

Merecidamente, ganhou um Oscar de Melhor Atriz e não o de coadjuvante.

 

FINAL

Redimido, Elmer se despede de sua "vida de menino".

O que preferir, Deus ou o Pecado?