CASD - DEPARTAMENTO CULTURAL

1. TEATRO

1.1 NOSSA CONTRIBUIÇÃO

 

Nossa contribuição ao teatro do ITA foi sendo gradativamente construída, com a participação de todos os interessados e chegamos a uma fórmula que era a seguinte:

- As peças aconteciam às segundas-feiras, dia em que as companhias teatrais não operavam em São Paulo e, portanto, poderíamos dispor da agenda e pagar preços mais baratos;

- As peças se realizavam às 21h, mas às 17h, horário em que já haviam terminado aulas e laboratórios, era realizada uma palestra do diretor do espetáculo que iria ser encenado. Esta palestra, servia para que os alunos mais interessados pudessem conhecer mais das intenções do autor, de quem era o autor e das ideias que nortearam o diretor na montagem da peça;

- Depois do espetáculo havia um coquetel no H13 em que participavam os artistas e o público, para que pudessem conversar e trocar ideias sobre a encenação e o desempenho dos artistas na representação de seus personagens e para discutir sobre significados de trechos do texto e de maneira de atuar dos artistas.

Este mecanismo começou a funcionar bem e passamos a receber impressões positivas dos alunos, dos artistas e do público em geral.

O Teatro de Arena de São Paulo nos dizia que eles já estavam se organizando para que a estreia de cada peça fosse feita no ITA, uma semana antes da estreia oficial em São Paulo, pois o retorno que eles estavam tendo dos alunos durante a apresentação das peças e nos coquetéis que as sucediam era de muita valia para que fizessem uma espécie de revisão nesta semana final antes da cortina ser levantada em São Paulo.

Diversas companhias com as quais tínhamos dificuldades de trazer ao ITA passaram a se interessar em vir com suas peças devido ao esquema montado por nós e a qualidade do público.

Da parte dos alunos tínhamos também um retorno muito favorável atestado pelas palmas ao final dos espetáculos e pelo comparecimento às palestras do diretor e ao coquetel com os artistas.

1.2.  Aprendizado importante sobre o teatro

Ao assistir as palestras dos diretores dos espetáculos, aprendemos muito sobre o pensamento dos autores, o ambiente em que cada um vivia e a motivação que tinham em escrever suas peças. Mas, sobretudo aprendemos a buscar a mensagem dos autores. Alguns autores se dedicavam a aspectos sociais e suas mensagens eram sempre voltadas a esses valores.

Outros autores, tinham uma intenção política, buscando pregar suas ideias nesse quadrante: abordavam aspectos como as guerras, os governos ditatoriais, os modelos políticos, a liberdade de escolha das populações dos lugares em que viviam.

De minha parte, devo dizer que foi uma abertura de cabeça para perceber as alternativas de organização da sociedade e como mobilizá-la para conseguir seus objetivos.

1.3. Os contatos com companhias teatrais para trazê-las ao ITA

Como comentado antes, em face do sucesso obtido nas apresentações no ITA, o contato com as companhias teatrais foi ficando cada vez mais fácil, embora muito trabalhoso, afinal chegavam a tomar uma parte importante do final de semana.

Tínhamos de ver as peças antes de trazê-las para o ITA e aprendemos a conversar com os diretores e produtores para resolver todos os problemas que envolviam a montagem de uma peça teatral para exibição no ITA. Desde a logística de transporte de cenários e dos artistas, como da iluminação, tema que pouco entendíamos até a questão comercial, pois o dinheiro que tínhamos era curto e só poderia ser gasto com a autorização do Reitor, que assinava os cheques.

1.4.  Teatro de Arena passa a estrear no ITA com programação padrão

 

Tivemos um período de graça, em que uma das mais importantes companhias teatrais do país estreava no ITA, antes de se apresentar para o público em geral, na cidade de São Paulo.

Infelizmente, não conseguimos trazer peças em que os cenários eram complexos e não podiam ser montados em nosso palco. Também, as peças com custos altos de manutenção, pois  não conseguíamos pagar.

1.5. Plínio Marcos estreia os Fantasmas no ITA

Um jovem autor que tinha dificuldade de obter teatro em São Paulo para encenar suas peças teve a oportunidade de se apresentar no ITA, estreando sua peça Os Fantasmas, com bastante sucesso. Por incrível que pareça, o sucesso obtido no ITA repercutiu e ele conseguiu apresentar a peça em circuito normal em São Paulo.

Mais tarde, Plínio tornou-se um autor premiado e conhecido em todo o país, graças ao sucesso de seus temas e da forma de abordá-los como foi o caso em “Dois Perdidos em Uma Noite Suja”.

1.6. Mímico Ricardo Bandeira

Uma experiência arriscada: a partir de um ponto, passamos a ter coragem de experimentar e de correr riscos maiores. Por exemplo, apresentar um espetáculo de mímica.

Bem, naquela época, em apresentações especiais, o famoso mímico francês Marcel Marceau se apresentava no Teatro Municipal de São Paulo e do Rio de Janeiro. Conseguimos achar um mímico brasileiro que foi aluno de Marcel Marceau, o mímico Ricardo Bandeira, que aceitou fazer um espetáculo no ITA, inclusive com números iguais aos apresentados por Marceau.

Foi um inesperado e grande sucesso.

 

 

1.7. Grupo Decisão de António Abujamra

Outro grupo promissor do teatro paulistano era o Grupo Decisão, sob a direção de Antônio Abujamra. Abujamra era um diretor famoso e seu grupo de artistas era muito bom.

Conseguimos trazê-los em moldes similares ao que fazíamos com o Arena e obtivemos sucesso, embora tenham sido poucas as apresentações deste grupo.

1.8. Experiência teatral de alunos - Caso Salim e Caso Esmanhoto.

O nosso show do ITA continuava a revelar bons talentos, como Esmanhoto que seguiu uma experiência teatral que por pouco não o fez abandonar a engenharia.

No meu caso, Salim, pude aprender muito com o mestre Boal. Vou contar uma passagem emocionante:

O encontro com Bial em Paris em 1984 - o TEATRO do Oprimido.

 

Estávamos juntos, Dulce, Helene, André e eu, no metrô de Paris quando vimos descer do vagão da frente o meu professor de teatro, Augusto Boal. Tentamos descer na mesma estação para falar com ele e não conseguimos. Contei meu relacionamento com Boal ao meu amigo André e ele ficou interessado em promover uma reaproximação minha com o Boal. Alguns meses depois, em nova viagem a Paris, André me convidou para almoçar na casa dele num domingo. Pediu que eu chegasse cedo pois queria minha ajuda para arrumar a mesa. Ao meio-dia eu estava lá. André então me disse que tinha um convidado especial que estava a chegar: o convidado era mestre Boal e conversamos a tarde toda sobre o Teatro do Oprimido que ele montara em Paris.

2. MÚSICA

2.1. MÚSICA CLÁSSICA

A mais importante apresentação de música clássica de que me lembro foi do pianista João Carlos Martins, que tocou “O Cravo Bem Temperado” de Bach.

 

2.2. JAZZ

Não me lembro de nomes, mas certamente eram artistas brasileiros que se apresentavam tocando jazz. Naquela época eu não conhecia nada de jazz e com os concertos do ITA passei a me interessar. Eu posso me arriscar e dizer que um dos conjuntos que se apresentou foi o Zimbo Trio.

 

 

2.3. BOSSA NOVA

 

O concerto de Vinicius, Vera Gertel e Carlinhos Lira foi um presente que ganhamos: fazia parte do Circuito Universitário e, portanto, tinha patrocínio do governo do Estado de São Paulo. O cenário era bastante simples: uma mesinha com três cadeiras pequenas e em cima da mesa o foco dos problemas que eu tive. Vinicius, que eu acabara de conhecer, sem saber que seria uma amizade fraterna para toda a vida, me pediu para conseguir uma garrafinha de whisky com um baldinho de gelo e três copinhos. Eu providenciei tudo e nossos artistas beberam o tempo todo do show, sem que isso tivesse prejudicado a qualidade do show, até porque tocaram todas as músicas famosas da época. Mas, a repercussão foi muito diferente da que foi demonstrada pela plateia, que aplaudiu muito ao trio. No dia seguinte, encontrei-me com o Prof. Lacaz que me disse: “Que vergonha! Você trouxe três artistas que se embebedaram o tempo todo dando mau exemplo aos jovens que estavam assistindo!”

Felizmente, meus dividendos compensaram: a amizade de Vinicius que durou até sua morte. De prático, ganhei muitas entradas para shows fenomenais.

2.4. O QUARTETO DO ITA

O trote mal tinha começado em 1960 e recebi um recado de um veterano para que eu comparecesse na sala cujo número ele me forneceu e que lá estaria o professor WALLAUCHECK, que queria falar comigo. Fui, um pouco desconfiado, porque no trote já tinha havido uma aula dada por um falso professor de física francês, que mais tarde ficamos sabendo ser um veterano chamado Cogos. Mas, desta vez não era trote: havíamos preenchido enormes questionários fornecidos pela comissão de trote, que visavam saber os nossos interesses e habilidades, com a finalidade de nos integrar na escola. Assim, o Prof. WALLAUCHECK soube que eu estudei violino 9 anos, antes de entrar no ITA. Expliquei que havia parado de estudar fazia um ano para poder me preparar para o vestibular do ITA. O Prof. WALLAUCHECK explicou que havia um Quarteto do ITA composto por ele (violino ou viola) e mais o aluno NIVALDO (violino), o professor KOELLER (violoncelo) e mais alguém no PIANO (não guardei o nome). Ele queria que eu integrasse este conjunto e me convidou para um ensaio. Eu fui e se realizou na casa do Prof. Koeller. De fato, foi muito engraçado: o Prof. Koeller dormia tocando violoncelo no meio das músicas e o Prof. WALLAUCHECK chamava a atenção dele batendo com o arco no seu violoncelo. Teve a hora do bolo: a esposa do Prof. Koeller era uma alemã tamanho grande e fazia tortas maravilhosas. Alguns dias depois o Prof. WALLAUCHECK me comunicou quando seria o próximo ensaio e foi aí que eu tremi. Expliquei que tinha medo de ser desligado do ITA, como acontecia há cerca de 10% dos alunos da turma, no primeiro ano, e que, por isso, eu precisava estudar muito e não havia como encontrar tempo para o estudo das músicas e os ensaios do quarteto. Wallau tentou me convencer, mas viu minha determinação (medo) e desistiu.

 - Mais adiante iríamos ter apresentações do Quarteto do ITA dentro da programação de música clássica que tínhamos.

- Um benefício de minha desistência foi que surgiu outro violinista, que ainda estava no início de seus estudos, o aluno Yaro Burian Junior, duas turmas mais antigas que a nossa. Tudo ia bem, exceto quando acontecia alguma coisa. Numa noite aconteceu: Yaro estava estudando violino à noite em seu apartamento e uma turma barulhenta e talvez inspirada pelo álcool cantava e perturbava o estudo do Yaro. Foi quando o futuro violinista e PhD em eletrônica surgiu com um estilingue e mandou uma pedrada que acertou no dente do João Lizardo. Estava feita a confusão e criado o ambiente para a reação da turma. Depois de passados alguns dias, em que houve várias manifestações contra o Yaro, foi feita a paz e daí para frente o Yaro foi adotado pela nossa turma. Quando terminou o curso de Engenharia Eletrônica em primeiro lugar em sua turma, Yaro foi convidado para ser professor do ITA. No seu primeiro ano como professor do Departamento de Eletrônica, nossa turma o convidou para ser o professor que nos acompanharia na viagem da turma à Europa.

2.5. BIRIBA BOYS

 

O famoso conjunto musical de São José dos Campos. Dirigido pelo Sergio Weiss, cuja família morava numa bela casa e tinha uma cerâmica. Ficaram conhecidos em todo país e tinham sucesso tocando nos bailes do ITA. No dicionário Cravo Albin encontra-se a composição do conjunto: Sérgio Weiss, Cid Cesar, Clemente, Ramiro, Celso, Aurélio, Carlos Ivan, Jurandir, Ivan, Roberto. O conjunto nasceu em 1949.

2.6. E nós não fizemos um Coral - uma pena, mas isso foi corrigido pelas turmas que nos sucederam: não foi criado um Coral do ITA, mas um Coral de São José dos Campos. Cheguei a participar de alguns ensaios em 1970, quando trabalhei no CNAE (atual INPE).